DANIEL VORLEY /AGIF/ESTADÃO CONTEÚDO

Falar sobre o Corinthians é a melhor coisa do mundo, ao mesmo tempo que é a mais difícil. O Corinthians é bem mais do que um clube de futebol com uma nação de torcedores, é estado de espírito, humor, é uma classe social à parte de outras classes sociais. Por ser tantas e tantas coisas, o Corinthians acaba se tornando a coisa mais difícil de se falar sobre. É inefável.

Talvez seja por isso que sempre puxo alguma memória para falar sobre. Lembro das arquibancadas improvisadas na lage de casa, uma casinha sempre pequena e sempre cheia de gente, e onde tem gente... Tem Corinthians. Quando penso em Corinthians penso nas primeiras camisas de banca que eu ganhava e usava até ficar marrom, graças à qualidade do tecido e do tanto que minha mãe tinha que lavar, eu praticamente as vestia puxadas do varal... 

Lembro da vez que foi para o estádio pela primeira vez, que perdi um pênalti duas vezes (o bandeirão baixou na hora, perdi a batida e por sua vez Bobô, ainda jogador de base, perdeu o penal). Lembro de pela primeira vez sentir o calor da torcida unida, feliz, lotada de gente que nunca tinha se visto e que provavelmente nunca iria se ver novamente, mas que se se importar compartilhavam o riso, a cerveja, a voz, o abraço e a comemoração, assim como compartilhariam o choro se preciso fosse...

Lembro de sonhar em ser camisa 10, sonho passageiro que não nutri tanto quanto devia, mas que surgiu graças ao Corinthians. Lembro do tanto de amizade que fiz e do tanto que a gente comemorava junto até os vizinhos se irritarem ao ponto de jogar água e mesmo continuarmos ali. Me lembro do gol do Cristian e do tanto que me tirou a voz, não tanto quanto o gol do Betão tirou...

Quando penso em Corinthians, vejo Marina apontando para mulheres vestidas com camisas com escudos iguais aos da minha camisa e o da camisa de Micheli, sua mãe, com as palmas das mãos erguidas, somando as batidas a mais de vinte e oito mil outras batidas acompanhadas da bela "A Semana inteira". E isso me vem a mente a sensação de que aos três anos de idade ela teve uma memória permanente, assim como as que eu tive comemorando o Brasileirão de 98-99, o Mundial de 2000... 

Como que descrevo ou defino cada coisinha mínima que o Corinthians me representa? Eu falei de mutias e ainda assim não falei... No fim das contas o Coringão é um sentimento único e ao mesmo tempo compartilhado... E sentimento, tal como a fé, não se explica, se sente. Podemos falar horas e horas sobre sentimento, podemos falar anos e anos sobre Corinthians e ainda assim continuar sem definição ou explicação... O clube, o time, a camisa, as cores... O combinado disso tudo que forma o maior de todos os times se resultando em algo simplesmente inexplicável. É invefável.